domingo, 12 de dezembro de 2010

Felicidade é um sentimento relativo - Por Jorge Azevedo




Há uma preocupação quase unanime do homem na busca da felicidade. Como se fosse possível repatriar um sentimento transformando-o em emoção planejada. A felicidade é efêmera. Momento relativo na vida.
Nenhuma felicidade é total, plena. Nenhuma infelicidade é completa, real. Toda emoção é passageira. O amor, a alegria, o sofrimento. Não há sentimento e nem emoção vitalicia.
Uma mulher bem amada, segura de seus sentimentos, balaustre da familia se vê repentinamente entre a felicidade total e a infelicidade completa. Sua unica filha lhe dará na manhã seguinte o primeiro neto. É uma neta. Ela fez questão de decorar o quartinho. Encher de bonecos, revestir as paredes com papel cor de rosa estampado com ursinhos e carinhas de palhaços sorridentes. O berço branco com apliques rosa, verde água e azul céu. A cortina rendada por babadinhos barroco e os lacinhos country deslizando harmoniosamente pelas laterais em forma de tranças.
As amigas telefonam, ela telefona. Recebe email, envia email. A filha tranquila, sentada na cadeira que foi de sua mãe. A mala está no canto da sala. O genro toma vinho com o sogro, sentados na varanda iluminada pela lua completamente cheia.
Na manhã seguinte a neta chegará e ela não sabe... Justamente nessa manhã o marido, o homem amado, possuidor de todos seus pensamentos, todos seus desejos, realizador de todas suas vontades, vai partir. Vai partir, assumir o romance com a secretaria de tantos anos. São amantes e apaixonados. Tem dois filhos, somente amanhã pela manhã ela saberá. Terá o doce da felicidade plena com a chegada da neta e sorverá o fel da infelicidade total com a partida do seu unico homem, o unico amor de sua vida.
Como administrar sentimentos tão díspares? Como entender a felicidade materna e conviver com a infelicidade marital? O sentimento é transitório. Tanto o bom quanto o ruim.
O amor e a raiva chegam, se alojam, mas não fazem morada. Um dia partem. Partem como um elo diante do fio afiado da tesoura do ferreiro. O elo se arrebenta e espalha fagulhas para todos os lados.
A felicidade é um sentimento relativo, aliás, todos os sentimentos são relativos, nenhum é pleno, nenhum é total. A delicadeza do amor se transforma na rudeza da pedra e a agressividade do ódio sucumbe diante da doçura do perdão, mas nem mesmo o perdão é permanente. Um dia ele cansa, como disse o poeta, o perdão cansa de perdoar. Um dia o perdão deixa de ser pleno e total.
A mulher do exemplo tomará a neta nos braços e chorará lágrimas cândidas. Olhará os olhos frios do marido/avô sem emoção, sem entender o sinal de despedida. Ele sabe que é a ultima vez. O sorriso da mulher já amante, hoje estranha, parece uma despedida muda. Um adeus sem palavra e ela, para raiva dele, não entende a lágrima escorrendo em seu rosto. Lágrima de raiva no rosto onde um dia rolou lágrima de paixão. Raiva e paixão, dois sentimentos oblíquos, paralelos, impares e singulares e tão multiplos, tão inconsequentes. Tão relativos em momentos tão absolutos.
Chega-se a conclusão que felicidade e infelicidade não existem. O que existe é a vivencia do momento. O que existe é a relação de ser ou não ser. Toda felicidade pode ser infeliz e toda infelicidade pode ser feliz. A mulher com a neta nos braços conhecerá em breve mel e fel. O homem com sua secretária terá em breve os sabores do fel e do mel. Até quando? Até quando felicidade e infelicidade deixarem de ser sentimentos absolutos e tornarem a ser sentimentos relativos.

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