segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O Silêncio - Por Rubens Lemos Filho


  O silêncio é o zero a zero de cada um. Com ele, no mínimo, não se começa a fazer besteira. É irmão adotado pelo ouvido. Que processa sem falar porque não pode e entrega o que o silêncio conserva nas expressões dos tímidos, dignos, egoístas, altruístas, teimosos, rabugentos, oportunistas, calculistas.
Quem se atreve a praticar o silêncio deve primeiro contemplá-lo para entender os seus ruídos que batem em som grave na alma como um tambor distante dos filmes de caubói. O silêncio não é a apenas consentimento, rendição, maquinação e traquinagem, seus espectros de maldade.
O silêncio de mestre é o que se vê nos rostos distintos se igualando em desejos codificados no olho ou no cacoete da expressão facial. O silêncio, todo ele, carrega um objetivo, é predador,justiceiro ou vingativo.
Até nos cemitérios, onde não há nenhuma ambição aparente, o silêncio é verbete de paz. Não tenho medo dos mortos, que estão em seu silêncio nos trucidando de saudade ou de alívio.
O silêncio não se segura nos muito-vivos, nos medíocres ativos, reconhecidos em firma, nos financistas que agüentam tudo calados, menos que nos seus bolsos alguém mexa, nos arrogantes vencidos, nos falsos profetas, nos impunes.
Há silêncios perigosos como o dos presídios. São silêncios que precedem rebeliões e sangue. Há silêncios confirmados e silêncios de desgostos. Há silêncios de rebeldia e de alegria, silêncio próprio dos tímidos. Há silêncios de vingança.
Há músicas sobre o silêncio, Simon e Garfunkel produziram uma obra-prima que faz rochedo chorar. Dezenas de livros foram publicados dissecando o silêncio. Romances, contos, poesias, crônicas, antologias, coletâneas, enciclopédias, teses acadêmicas, ilusões de auto-ajuda. Só não fizeram ainda a biografia do silêncio.
Muitos filmes de tantos estilos , cada um durando mais de duas horas com todos se exibindo em torno do silêncio. Existe um deles que é a própria ostentantação da metáfora:Os Gritos do Silêncio. A seu modo, é verdade, ele – o silêncio -, emite o som do gemido. O barulho é o seu inimigo fanfarrão e ostensivo como os seus intérpretes exibidos e apressados.
O silêncio é um 0 a 0, se no futebol silêncio houvesse. Nas arquibancadas, desabafa-se até em silêncio, nem que se tenha um ataque fulminante do coração que não suporta e explode.
Na vida, límpida pelo sol dos céus anônimos, o silêncio pode representar a vitória sem soberba sobre aqueles acostumados a gritar inutilmente. Ou a dissimular no silêncio da falsidade.
Neles, o silêncio enfia uma goleada. De 10 a 0.

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